Dakar 2026: A um dia do arranque - Mar Vermelho, Luz Verde
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Os protagonistas estão prontos para a 48.ª edição do Dakar, depois de concluírem dois dias de verificações técnicas e administrativas em Yanbu, nas margens do Mar Vermelho.
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Para tentar destronar o saudita Yazeed Al Rajhi e o seu Toyota Hilux, dois construtores que chegaram recentemente ao rally-raid apresentam argumentos muito credíveis: os Dacia Sandriders, liderados por Sébastien Loeb, Nasser Al Attiyah e Lucas Moraes, e os Ford Raptor, com Carlos Sainz, Nani Roma e Mattias Ekström.
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A grande batalha nas motos deverá jogar-se entre a Red Bull KTM Factory Racing, do campeão em título Daniel Sanders, e a Monster Energy Honda HRC, onde Tosha Schareina foi o principal rival do australiano ao longo da época passada.
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Nos camiões, o checo Martin Macík vai apontar a uma terceira vitória consecutiva, um feito raro na história do Dakar, mas terá de estar atento à ameaça dos dois perseguidores que o acompanharam no pódio final de 2025: o jovem neerlandês Mitchel van den Brink e outro checo, Aleš Loprais. Também estarão em jogo dois títulos: na classe Challenger, com a dupla Cavigliasso–Pertegarini, também favorita; e nos SSV, onde se adivinha um duelo entre os Polaris (Heger, De Soultrait, etc.) e os Can-Am (López, Andújar, etc.).
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Para arrancar com o grande “loop” que exigirá mais de 8.000 quilómetros até à chegada em Yanbu a 17 de Janeiro, haverá um mini-circuito de 22 km para o prólogo do Dakar 2026. Os tempos não contarão para a classificação geral no caso das equipas FIA, mas nas motos o cronómetro começa logo a contar.
SÉBASTIEN LOEB: “CONSEGUI ANDAR AO RITMO CERTO”
E se esta edição for, finalmente, a dele? Este ano, Sébastien Loeb enfrenta o seu 10.º Dakar, uma prova que lhe tem resistido como poucas, apesar de já ter terminado cinco vezes no top-3 e somar 28 vitórias em etapas desde a estreia em 2016. Ainda assim, os sinais são positivos: encadeou três pódios consecutivos na época do W2RC, incluindo a sua primeira vitória no Rallye du Maroc. “Nas últimas corridas, consegui andar ao ritmo certo e escolher os momentos certos para atacar”, admitiu o alsaciano. “Dito isto, ganhámos por um triz — foi tudo muito renhido. Os nossos adversários estão colados. Ao atacar a fundo em Marrocos, acabámos todos com tempos muito semelhantes, o que significa que está tudo em aberto.”
A equipa Dacia Sandriders conta também com Nasser Al Attiyah para colocar um dos seus quatro carros no lugar mais alto do pódio. O qatari soma já cinco troféus do Dakar em casa, em Doha, e até abdicou dos campeonatos do mundo de tiro, que acontecem no Qatar dentro de poucos dias, para maximizar as hipóteses de voltar a sentir o sabor da vitória no Dakar. Continua a acreditar muito nas suas possibilidades e não se rende à nova geração: “O meu sonho continua a ser ganhar o Dakar. A competição é dura e estamos felizes por ter este desafio. Continuo a evoluir: tenho mais experiência e continuo a sentir-me bem em todo o tipo de terrenos, tanto nas pistas de areia como nas de pedra.”
No final de 2025, Al Attiyah viu escapar um 10.º título mundial (W2RC + Taça do Mundo FIA de Rally-Raid) para um dos nomes mais fortes do momento, Lucas Moraes, com quem vai agora partilhar refeições na cantina do “paddock” da Dacia. O brasileiro, 3.º no Dakar de estreia em 2023, fará a sua primeira aparição competitiva no Sandrider no prólogo, mas quer deixar marca: “Espero que consigamos manter a consistência e lutar bem na segunda semana.”
CARLOS SAINZ: “ESTÁ MUITO, MUITO RENHIDO”
Entre os candidatos ao título Ultimate, os Ford Raptor chegam com um nível de experiência no Dakar semelhante ao dos Dacia Sandriders. Se olharmos para o palmarés dos pilotos, o equilíbrio mantém-se: Carlos Sainz e Nani Roma somam cinco títulos entre os dois — precisamente o mesmo número que Nasser Al Attiyah tem, sozinho, no currículo do Dakar.
No ano passado, a marca americana terminou o Dakar em alta, com Mattias Ekström no pódio (3.º), imediatamente à frente de Al Attiyah. Apesar de ter saído cedo da prova no ano passado, Sainz não tem complexos perante os rivais: “Os Dacia já estavam a um bom nível no ano passado. Acho também que no ano passado nós não estivemos mal, mas provavelmente este ano os Dacia estão melhores, nós estamos melhores e a Toyota também está melhor. Acho que está tudo muito, muito renhido — vimos isso em Marrocos. Acho que pelo menos doze pilotos podem ganhar a corrida.”
Entre esses nomes, o líder da Ford inclui, naturalmente, o seu compatriota Nani Roma, que sabe como ninguém que o Dakar é especialista em imprevisibilidade: “Lembro-me de quando era campeão em título em 2015 e tive de abandonar ao fim de apenas três quilómetros da primeira especial, por o motor ter rebentado, algo que nunca devia acontecer! Por isso, a minha experiência ajuda-me a encarar a corrida com tranquilidade e a desconfiar de qualquer previsão.” Palavra de quem já viu de tudo…
DANIEL SANDERS: “VAI SER UMA CORRIDA ATÉ À LINHA DE META”
Houve um piloto que dominou a época de 2025 nas motos: o campeão em título, que também conquistou a coroa do W2RC, começa o Dakar com estatuto de grande favorito. No ano passado, o líder da KTM venceu o prólogo e não largou o topo da geral até Shubaytah. Mas não está à espera de uma quinzena assim tão “limpa” desta vez: “Acho que vai ser uma corrida até à linha de meta. Parece que vai ficar mais duro à medida que avança. O piloto mais consistente vai estar lá todos os dias, sem ter um dia mau, sempre na frente — e este ano temos muitos dias para isso.”
Graças às prestações de 2025, o australiano correrá com o número 1 e terá um estatuto privilegiado dentro da Red Bull KTM Factory Racing. Se algo correr mal, deverá poder contar com o apoio de Edgar Canet (8.º em 2025) e do antigo campeão do mundo Luciano Benavides, que também procuram grandes resultados.
TOSHA SCHAREINA: “EU GOSTO DESTA PRESSÃO”
Na era saudita do Dakar, o marcador está 3–3 entre KTM e Honda. Entre os pilotos de vermelho, Ricky Brabec é o único antigo vencedor, mas a Monster Energy Honda HRC tem recursos de sobra para tentar desempatar. O seu principal trunfo chama-se Tosha Schareina, segundo atrás de Sanders em Janeiro e também no final da época do W2RC — que fechou com vitória no Rallye du Maroc.
A Espanha não tem um vencedor nas motos desde Marc Coma, em 2015, mas pode ter aqui o seu porta-estandarte mais promissor desde então. No seu 5.º Dakar, falta-lhe dar o passo mais exigente: subir ao topo do pódio. “É uma situação privilegiada para mim. Toda a gente olha para mim à espera da vitória. Eu gosto desta pressão. Preparámo-nos para o Dakar o ano inteiro, por isso estamos motivados e prontos.”
O pódio de 2025 teve dois pilotos Honda, graças ao 3.º lugar de Adrien Van Beveren. O francês é mais uma arma para o construtor japonês e sente que está na forma da sua vida, à procura do encontro com o destino na 11.ª participação: “Naturalmente, sonho ganhar, mal posso esperar por começar. Diria que o Sanders é muito forte, tal como o Tosha. A pressão está do lado deles porque mostraram que foram os melhores ao vencerem as corridas da época. Mas no Dakar, a chave é não olhar para os outros e concentrar-se no que és capaz de fazer — e isso é outra coisa que a experiência me ensinou.”
W2RC: UMA MONTANHA PARA ESCALAR E O INÍCIO DA SUBIDA
O Dakar, o Everest do rally-raid, é também desde 2022 a primeira das cinco “cimeiras” do calendário do W2RC. Para 2026, a conferência inaugural aconteceu esta tarde sob a lona de uma tenda tradicional saudita, cenário onde David Castera abriu a quinta época: “Estou orgulhoso do calendário desenvolvido para 2026 e também satisfeito por receber um número crescente de inscrições de concorrentes, bem como candidaturas de países anfitriões como Chile, Itália ou China. Isto demonstra a qualidade e o potencial deste campeonato, que nos ajudará a continuar a expandir a disciplina em conjunto.”
Depois do Dakar, a caravana ruma à Europa em Março, com base em Grândola para a 3.ª edição do bp Ultimate Rally-Raid Portugal, e com Loulé, no Algarve, como nova cidade anfitriã da chegada. O Desafío Ruta 40 regressa no final de Maio, com Mendoza, uma cidade bem familiar ao Dakar, como novo local de etapa. Marc Coma, cinco vezes vencedor do Dakar nas motos e novo Director do Rallye du Maroc, foi anunciar a continuidade da filosofia e do formato da prova, que arrancará numa grande cidade marroquina no final de Setembro e terminará num bivouac central. Mahir Badri (EMSO), organizador do Abu Dhabi Desert Challenge, sublinhou que, ao assumir o estatuto de prova final do W2RC em Novembro, a corrida mais antiga dos calendários FIM e FIA regressará às datas das suas origens.
DAKAR CLASSIC: O PRAZER NÃO ESTÁ EM GUERRA COM A IDADE
Ontem, os motociclistas “sem assistência” da categoria Original by Motul receberam a visita do Director do Dakar. Esta manhã, outros concorrentes movidos pelas tradições das primeiras edições do rally-raid foram convidados para um briefing: os do Dakar Classic, que vai para a sua 6.ª edição a par da competição moderna entre os mais rápidos.
Os participantes conduzem veículos antigos e focam-se na regularidade. O Director David Castera quis destacar a “importância e dimensão” que este formato “histórico” ganhou em poucos anos. Hoje, a prova já tem os seus especialistas, mas continua a acolher “entusiastas da mecânica e amantes da história do Dakar”, que voltam a ter um privilégio especial: “viajar por lugares maravilhosos que nem o próprio Dakar consegue visitar.”
LEVE NO PESO, FORTE NO IMPACTO
“Batalha campal entre os SSV” podia ser o título da novela cujos créditos de abertura começaram hoje nas verificações. A equipa oficial Polaris, vencedora das últimas duas edições, chegou com cinco “armas” de topo — mais RZR do que nunca. Brock Heger tem um título para defender, Xavier de Soultrait quer recuperar a coroa conquistada em 2024, e o oito vezes campeão do mundo de rallycross Johan Kristoffersson quer ganhar traquejo na disciplina. A equipa Santag, que recrutou o ex-motociclista Hélder Rodrigues, assegura reforço sério, tal como o vencedor do W2RC de 2025, Alexandre Pinto.
Do outro lado, o clã Can-Am também tem argumentos: nada menos do que nove Maverick R com as cores do construtor, repartidos por três equipas. A América do Norte está representada por Hunter Miller e Kyle Chaney, enquanto os vizinhos do sul são liderados pelo múltiplo vencedor ‘Chaleco’ López e por um piloto que já provou o sabor da vitória nos quads, Manuel Andújar.
Na classe Challenger, para defender o título, Nicolas Cavigliasso adoptou uma estratégia totalmente oposta: nos últimos meses, o argentino decidiu isolar-se na sua própria equipa Vertical Motorsport, mantendo o seu técnico e mecânico, e construindo um stock próprio de peças para controlar melhor aquilo que utiliza. Dois sauditas podem muito bem estragar-lhe os planos — Dania Akeel e Yasir Seaidan — a menos que a ameaça venha do seu compatriota David Zille.






