Cronica: Uma Corrida de Superação no Coração do Alentejo
Os leitores mais atentos, bem como aqueles que nos acompanham e seguem o nosso projeto diariamente, terão notado que não houve artigo após a ronda do Troféu X-Trophy em Alter do Chão. Um incidente envolvendo a nossa equipa, vitimou um querido amigo da nossa estrutura na véspera da corrida, e a decisão para nós foi imediata e final: não estaríamos à partida da prova na manhã seguinte.
Na altura não sabíamos quando voltaríamos, mas nesse momento, pusemos tudo em segundo plano, e desde então recuperámos o nosso ritmo pouco a pouco, tirando para nós o tempo necessário, e trabalhando noutros projetos que a nossa equipa (RAC - Rally Aventura Clube) promove no mundo do desporto motorizado.
Apesar de tudo, e como é natural no mundo da competição, o trabalho e a preparação, mesmo que de alguma forma condicionados, não param.
Dessa forma, fazia-nos sentido estar presentes na ronda de Viana do Alentejo e tentar terminar com nota positiva a primeira metade da época, após não termos alinhado em Alter do Chão e de um DNF na ronda inaugural na Chamusca.
Com a preparação da prova, veio a rápida perceção de que esta seria uma prova que “foge” à típica prova do Troféu X-Trophy. Um traçado mais curto, numa antiga pista de motocross, significava à partida uma necessidade de mudar a abordagem à forma como encarávamos a corrida e como teria que pilotar, dado que para além disso, já seriam esperadas temperaturas de verão, que alteram sempre a forma como se gerem máquinas e pilotos.
Tudo pronto e preparado para a corrida!
Como expectável, o Alentejo recebeu-nos com um verdadeiro dia escaldante, se bem que ainda em Maio, e com ele traria o ingrediente principal da corrida: O pó. Muito pó!
Apresentámo-nos na grelha de partida com a missão clara de “salvar” a época pré pausa veranil, e de braçadeira negra no braço, num regresso sentido, onde queríamos acima de tudo, obter um resultado que homenageasse alguém que nos era muito próximo, e um incondicional apoiante das nossas ideias desportivas.
A estratégia para tal estava decidida, e arrancar na linha da frente seria um grande trunfo, pois evitaria andar logo ao início no pó de quem pudesse ir à frente a dificultar-nos a vida. Isto se não tivesse deixado a mota ir abaixo logo no arranque. Rapidamente recuperando desse azar prematuro, e aproveitando a queda de um piloto logo na primeira curva, que fechou a pista, furei o pelotão que estava parado e consegui sair com bom ritmo fugindo ao pó, e recuperando boas posições que na partida desajeitada e confusa, se tinham perdido.
Quase a fechar a primeira volta e já a apanhar pó de pilotos que tinham ganho alguma vantagem, numa zona onde mais à frente viriam a cair outros pilotos, caí agressivamente, embatendo violentamente com a cabeça no chão. Contaram-me no fim, pilotos que vinham atrás de mim, que a roda de trás da mota terá passado, depois de eu ter sido projetado, a uns 3 metros do chão! O certo, é que tendo-me levantado o mais rápido que consegui, o desafio foi encontrar a mota entre o pó que se tinha levantado, indo encontrá-la a quase 10 metros de mim, já fora da pista. O corpo começou aí a ressentir-se, mas eu ainda não o sabia…
Uma paragem rápida na Zona de Assistência, feita para uma rápida avaliação do estado da mota e uma troca de óculos, e havia ainda muita corrida pela frente.
Era preciso recuperar o tempo perdido, pois o cronómetro não para para azares, e as voltas seguintes foram as mais rápidas, conseguindo nelas, recuperar algumas posições e reganhar alguma confiança.
A fluidez durou algumas voltas, e parou apenas num pequeno erro pago muito caro.
Após uma zona rápida, numa curva fechada à direita, bastante escorregadia, um toque errado no travão dianteiro resultou numa nova queda, que não sendo nada de importante por si, se seguiu imediatamente de um atropelamento por um piloto que vinha atrás e não me conseguiu evitar. Mais um duro e brutal golpe no corpo e muito tempo perdido, dado que fiquei, não só combalido, como preso debaixo da mota que me tinha atropelado, durante tempo que me pareceu demasiado longo, tendo em conta que estavam várias pessoas envolvidas que eventualmente levantaram a mota.
Nova paragem na ZA e desta vez já a serem necessários maiores cuidados com a mota que havia sofrido imenso até então, e deixado partes de si na luta sofrida que travou na pista. Abastecimento meu e da mota, e reorganizada a estratégia que à partida não era de todo aquela que agora seria precisa para chegar ao fim, e tentar ainda resgatar um resultado positivo. Faltavam 45 minutos de corrida.
Incrível o efeito da adrenalina no corpo humano, ou da resiliência, ou da força da vontade. Viria a descobrir no fim as mazelas físicas que a corrida já tinha causado até aí, mas ao voltar à pista, houve um retorno ao andamento, se bem que moldado por uma nova postura. Não adiantava atacar erraticamente e arriscar outra enorme queda enquanto atravessasse o pó levantado por outros pilotos, então, sempre que o pó se fazia sentir cerrado, e na minha opinião, demasiado perigoso para competir, o ritmo baixava aguardando por uma nova aberta que permitisse fazer o nosso trabalho, e levar a cabo o que nos levou a uma zona do Alentejo que pessoalmente acho incrível.
Uma corrida cheia de eventos, que bem sabemos estarem sempre plausivelmente à espreita para quem entra em pista, mas passadas todas as peripécias, azares, sortes, e momentos em que desfrutámos, foi ainda possível trazer para casa um 9º lugar na Classe TT1, que é o nosso objetivo para este ano.
Termino com uma palavra de apreço à organização que a meu ver organizou um belo evento, com um traçado de que gostei muito e uma “Fan Zone” muito interessante, com várias zonas de alimentação e festa, que criaram durante dois dias um “Oasis Alentejano do Todo Terreno”. Creio que estes eventos devem ter, não apenas excelentes condições para quem compete, mas também para quem assiste e se quer juntar, de forma a promovermos positivamente o nosso desporto junto do público e de entidades públicas que nos possam ajudar a crescer o motociclismo em Portugal.
Certamente iremos voltar a Viana do Alentejo em edições futuras.
Resta-me agradecer aos nossos patrocinadores e aos nossos apoiantes que cada vez mais se fazem sentir presentes nas corridas e no dia-a-dia. Sem eles nada seria possível de fazer de forma tão bonita e humana, como nós desejamos que seja. A nossa equipa somos nós deste lado, e todos os que ao nos verem competir, sentem connosco aquilo que alcançamos e vivemos.
A todos os que se sentem incluídos nesta descrição um bem haja e um enorme, gigante abraço!
Venha a pausa do Verão. É hora de recuperar as lesões sofridas, que reveladas após exames médicos extensos pós prova, não são graves, mas carecem da sua atenção e tempo de repouso. Continuaremos a trabalhar porque queremos mais e melhor, e melhores resultados virão!
Vemo-nos em Outubro no X-Trophy em Barcelos!
Miguel Venceslau
Rally Aventura Clube






